Qui, 18 de junho de 2026

Projeto Fortalecer transforma acesso à justiça e promove dignidade no sistema prisional sergipano

A Fapese, em parceria com a UFS e o Ministério da Justiça e Segurança Pública, executam ações de atendimento jurídico, psicológico e social para internos e egressos do sistema prisional, bem como seus familiares, através do Projeto Fortalecer 

Estagiária e bolsista do programa realizando atendimento às internas do Prefem /Fotos: Maria Vitória Guimarães/Ascom Fapese

Por trás dos muros das unidades prisionais existem histórias interrompidas, dúvidas sem respostas, direitos ainda desconhecidos e a busca por uma nova possibilidade de recomeço. Em um sistema prisional marcado historicamente por desafios relacionados à garantia de direitos fundamentais e à promoção da dignidade humana, iniciativas que aproximam a justiça das pessoas em situação de privação de liberdade se tornam essenciais para a construção de uma sociedade mais justa.

É nesse contexto que surge o Projeto Fortalecer, uma iniciativa executada pela Fundação de Apoio à Pesquisa e Extensão de Sergipe (Fapese), em parceria com a Universidade Federal de Sergipe (UFS) e o Ministério da Justiça e Segurança Pública. Com investimento de aproximadamente R$ 1 milhão, o projeto promove ações de pesquisa e extensão universitária voltadas ao acesso à justiça, cidadania, saúde mental e reintegração social de pessoas privadas de liberdade, egressas do sistema prisional, pessoas em monitoramento eletrônico, além de seus familiares.

A proposta nasceu diante de um cenário em que ainda existe uma grande distância entre os direitos previstos em lei e sua efetivação no cotidiano da população carcerária. Em Sergipe, o projeto atua a partir de uma perspectiva interdisciplinar, reunindo estudantes e profissionais das áreas do Direito, Psicologia, Serviço Social da UFS para oferecer acolhimento, orientação e encaminhamentos especializados.

Segundo a coordenadora do projeto, a professora Luciana de Aboim Machado, o Fortalecer representa uma ponte entre a universidade, o sistema de justiça e a população em situação de vulnerabilidade.

“O Ministério da Justiça e Segurança Pública lançou um edital para o desenvolvimento de políticas públicas penais e a UFS foi contemplada com essa proposta que busca promover atendimentos às pessoas encarceradas, em monitoramento eletrônico, em audiências de custódia e também às suas famílias. A partir de uma atuação interdisciplinar, o projeto não apenas garante acesso a direitos, como também contribui para a formação prática dos estudantes, incentivando a pesquisa e a construção de propostas de mudanças dentro do sistema penal brasileiro”, destaca.

A escuta como primeiro passo para transformar realidades

Lícia Barreto, estudante do curso de Direito da UFS, atua no projeto com atendimento jurídico

No Presídio Feminino de Sergipe (Prefem), um dos primeiros espaços atendidos pelo projeto, os resultados já demonstram a dimensão do trabalho realizado. Em um mutirão inicial promovido pela equipe do Direito, aproximadamente 242 internas foram atendidas em apenas duas semanas.

A supervisora da área de Direito do Projeto Fortalecer, Joseane Santana Nunes, explica que a iniciativa funciona como um elo entre as demandas da população carcerária e a Defensoria Pública, permitindo que os casos cheguem aos defensores com informações previamente organizadas e diligências iniciais realizadas.

“Muitas internas chegam até nós sem respostas sobre seus processos ou sem acesso a uma orientação jurídica adequada. Nosso trabalho é acolher essas demandas, organizar as informações necessárias e encaminhá-las à Defensoria Pública, facilitando a tramitação e tornando o atendimento mais célere”, explica.

Essa atuação ultrapassa os muros das unidades prisionais e alcança também familiares, pessoas em cumprimento de pena em liberdade, indivíduos em monitoramento eletrônico e egressos. Para o defensor público e coordenador do projeto, Ermelino Costa Cerqueira, essa rede de apoio é fundamental para aproximar a população do sistema de justiça.

“Somos justamente a ponte entre o familiar, o interno e o Poder Judiciário. Recebemos todo tipo de demanda, seja das pessoas que estejam cumprindo pena em liberdade, seja de seus familiares. Temos esse atendimento para essas famílias, buscando facilitar o acesso delas aos seus direitos”, afirma.

A parceria também fortaleceu o trabalho desenvolvido pelo Núcleo de Execução Penal da Defensoria Pública, que possui uma demanda constante de pessoas privadas de liberdade e seus familiares. Para a assessora da Defensoria Pública, Denise Santos, a chegada dos estudantes ampliou a capacidade de acolhimento da instituição.

“O projeto engrandeceu muito porque temos uma demanda alta e, com a chegada dos estagiários, pudemos atender com mais agilidade as demandas trazidas pelos familiares e pelos atendimentos dentro das unidades carcerárias”, destaca.

Segundo Denise, além das questões jurídicas, muitas famílias chegam ao núcleo em situação de vulnerabilidade social e emocional. Muitas vivem no interior do estado, possuem dificuldades financeiras para deslocamento e enfrentam os rígidos protocolos de segurança para visitar seus familiares nas unidades prisionais. Por isso, o atendimento remoto, inclusive por meio do WhatsApp, tornou-se uma ferramenta importante para ampliar o acesso à assistência jurídica.

Internas do Prefem em atividades de trabalho

“Os estagiários são braços, mãos e pessoas que trazem também um atendimento humanizado, com acolhimento. Cada família chega aqui em uma situação de vulnerabilidade muito grande. Elas enfrentam deslocamentos, procedimentos de segurança e situações constrangedoras durante as visitas. Então, esse acolhimento faz toda a diferença”, ressalta.

O trabalho também se estende ao Centro de Monitoramento Eletrônico, onde pessoas submetidas a medidas alternativas ou monitoramento recebem orientações, esclarecem dúvidas e são encaminhadas conforme suas necessidades.

Para a estudante de Direito e bolsista do projeto, Lícia Barreto, participar do Fortalecer tem significado um contato direto com uma realidade que muitas vezes está distante das salas de aula.

“Trabalhando no projeto e atendendo dentro da unidade prisional, percebemos que muitos pedidos das internas são, antes de tudo, um pedido para serem ouvidas. Elas querem entender como está o processo, verificar sua pena, buscar possibilidades de estar mais próximas dos filhos e das famílias. Muitas vezes, o nosso atendimento representa uma esperança de que sua voz será escutada”, relata.

Ainda no terceiro período da graduação, Lícia destaca o quanto a experiência tem contribuído para sua formação acadêmica e humana. “A faculdade nos oferece uma base teórica muito importante, mas o projeto permite enxergar a realidade. Na prática, percebemos que o acesso à justiça não chega da mesma forma para todas as pessoas. Poder contribuir para que alguém tenha seus direitos garantidos é algo muito enriquecedor e transformador”, afirma.

Para a estudante de pós-graduação que integra a equipe do Serviço Social, a experiência demonstra o impacto de uma escuta qualificada. “Nos atendimentos identificamos inúmeras demandas trazidas pelas internas, principalmente dúvidas relacionadas a benefícios sociais, como o Bolsa Família. Isso mostra como é importante levar informações qualificadas para dentro do sistema prisional e garantir que essas mulheres tenham acesso aos seus direitos”, explica.

A diretora do Presídio Feminino, Monica Barreto, destaca que o Fortalecer complementa ações já existentes e oferece às internas um atendimento mais completo. “O projeto impacta de forma muito positiva porque envolve áreas extremamente importantes para elas, como o Direito, o Serviço Social e a Psicologia. Além disso, a meditação tem sido uma experiência fantástica. Essas ações fortalecem os projetos já existentes e contribuem para o processo de ressocialização”, disse.

O cuidado com a mente como caminho para a ressocialização

Além da assistência jurídica e social, o Projeto Fortalecer também abre espaço para o cuidado emocional e a promoção da saúde mental. Uma das ações desenvolvidas no Presídio Feminino é a prática de meditação em parceria com a Associação Vipassana, proporcionando aos internos momentos de silêncio, concentração e autoconhecimento. Uma das internas participantes, que terá sua identidade preservada nesta matéria, relatou, que a prática tem sido um aliado importante para lidar com a ansiedade e com os desafios da rotina no ambiente prisional.

Momento de meditação com o psicólogo voluntário do Projeto Fortalecer

“Eu estava com a mente muito agitada e, depois da meditação, fiquei mais leve e tranquila. Quando minha mente acelera novamente, lembro da respiração, me concentro e consigo recuperar essa sensação de calma”, conta.

Outra interna destaca que, mesmo enfrentando dificuldades para dormir, a meditação ajudou a reduzir dores de cabeça e trouxe mais tranquilidade durante a noite. Para o psicólogo voluntário da Associação Vipassana, a prática oferece uma ferramenta que pode acompanhar essas pessoas dentro e fora do ambiente prisional, contribuindo para o equilíbrio emocional e para uma relação mais consciente consigo mesmas. 

“A associação oferece cursos desde 1975 nos presídios e as pesquisas que têm sido feitas mostram que a prática reduz a reincidência em 75%. 
Ou seja, temos números para comprovar que o curso de meditação no presídio impede que elas voltem, que qualquer interno volte. E a gente está no primeiro passo, o curso tem 10 dias. A gente está fazendo uma introdução. 
Mas, já com essa introdução, algumas devolutivas são muito interessantes. ‘Esqueci que eu tava presa; não lembrava que eu conseguia sentir essa paz’, e por aí vai. Cerca de dez a 20 minutos, já impacta a mente”, conta o profissional.